sexta-feira

O SOM DA CHUVA

Estou ouvindo o som da chuva.

Junto com ele, também ouço o som dos carros passando sobre o chão molhado, buzinas, vozes, e outros sons comuns em cidades grandes.

Quem me conhece pessoalmente, sabe que tenho (tinha) deficiência auditiva.

Proveniente de uma doença que herdei de meu pai, convivo com isso, já há algum tempo (não vou entrar em detalhes sobre isso).

Mas vou apenas acrescentar: há bastante tempo.

Meu pai teve 5 filhos e apenas eu apresentei essa doença.

Sempre fui muito otimista, então, não dei importância para o fato.

Procurava ver o lado bom, e com certeza existem vários: não ouvir muitas bobagens que são ditas por aí, ouvindo menos me estresso menos ou não me estresso, quando o Corinthians foi campeão, eu devo ter sido uma das únicas pessoas que conseguiu dormir, etc., acho que já deu para entender, né?

E assim fui levando minha vida...

Hoje percebo que devia dar muito trabalho para as pessoas a minha volta, que tinham que falar mais alto para que eu pudesse ouvir, deixar a televisão no último volume, etc, e como eu não me estressava,  também não percebia o quanto as pessoas próximas podiam se estressar com essa situação.

No meu trabalho, essa perda não era tão limitante, apesar de muitas vezes não entender o que alguns clientes queriam, eu conseguia produzir minhas peças (para isso o silêncio é perfeito), fazer minhas pesquisas e estudos,  dar aulas.

Minhas filhas aprenderam desde pequenas a falarem alto para que eu pudesse ouví-las.

Então, tudo seguia bem, e eu achava que talvez tivesse até sido beneficiada com essa perda auditiva.

Com o tempo, essa perda foi aumentando, e de repente, eu não conseguia mais ouvir uma peça de teatro, conversar com pessoas numa reunião ou festa, ouvir uma palestra de conteúdo importante mesmo, e também, não ouvir os comentários das pessoas em cursos presenciais que frequentava.

De certa forma, comecei a ficar isolada, e pior, nem me dava conta disso.

Também, nunca fiz muita questão de tentar procurar mesmo, um tratamento, pois achava que as coisas eram assim e ponto final.

É engraçado como não sabemos o que estamos perdendo até conhecer o outro lado...

Através do curso que frequento, comecei a sentir necessidade de ouvir as pessoas, e isso foi o que mais me motivou a procurar uma solução para esse problema.

Numa consulta com um médico, ele me aconselhou que usasse aparelho auditivo, pois a cirurgia não seria uma boa opção para o meu caso.

Algo parecido, já tinha sido dito por outro médico, então eu achei que a solução seria mesmo colocar o aparelho e pronto!

Há um tempo atrás, e tinha tentado usar aparelho, mas quase enloqueci com tanto barulho: respiração, passos, talheres, era demais para mim, então desisti.

Mas agora, era diferente, pois queria ouvir o que meus colegas falavam nas aulas.

Então, fui numa firma que vende aparelhos auditivos para fazer um teste.

Quando coloquei o aparelho, comecei a ouvir minha voz, a voz da Fono falando baixinho e com um papel na boca para que eu não pudesse ler seus lábios, e barulhos de fora da sala, e muito mais.

Minha nossa!!!

Quanta coisa eu não ouvia...

Foi quando comecei a perceber, quanta coisa estava perdendo.

Através dos sentidos, é que percebemos o mundo, e eu estava deixando de perceber muita coisa através da minha audição falha.

O conhecimento disso me trouxe uma necessidade: eu preciso ouvir!

E isso é um fato.

Não tinha mais volta.

Se não podia fazer tratamento, teria que conseguir um aparelho, o importante era que eu pudesse ouvir as coisas que estava perdendo.

Mas o aparelho era caro, e naquele momento eu não estava em condições de comprá-lo.

Foi então que recebi uma informação sobre o hospital Cema, que faz doações de aparelhos.

Bem, eu tinha que tentar, já que não podia comprar um aparelho.

E fui.

Fui fazer os exames, para comprovar que minha perda era grande o suficiente para que eu tivesse direito ao aparelho.

Ao fazer o exame, a Fono me questionou, se no meu caso eu não poderia operar.

Eu lhe disse que já dois médicos haviam dito que não, que a solução seria mesmo o aparelho.
E embora, ela não tivesse nada com isso, ela foi muito insistente, para que eu procurasse um especialista só de ouvidos, pois eu era muito nova, e se desse certo eu não precisaria usar o aparelho, etc. etc. etc.

Resolvi então aceitar sua sugestão, e procurei um especialista.

E para minha surpresa, após solicitar alguns exames, ele me disse que o meu problema poderia ser resolvido com cirurgia, e que as chances eram muito boas, e que ele não via impedimento algum para que eu não fizesse a cirurgia.

Então, para encurtar a história, eu operei, e hoje após retirar os curativos, como num passe de mágica,  eu comecei a ouvir.

Senti, como se tivessem ligado o auto-falante perto de mim.

Vocês devem estar perguntando, porque eu estou contanto isso, não é?

Na verdade, além de compartilhar com vocês uma conquista tão importante para mim e deixar registrado esse momento, eu quero transmitir o meu aprendizado disso tudo, na esperança, que possa ser útil de alguma maneira para alguém.

Se a Fono não tivesse me questionado sobre a possibilidade da cirurgia, eu simplesmente teria pego meu exame e encaminhado para solicitar o aparelho e fim.

Mas graças a ela, uma desconhecida, que para mim, foi um anjo colocado em meu caminho, eu procurei um especialista, que fez a cirurgia e me curou.

Quantos anjos passam pela nossa vida, e nem percebemos?

Mas eles existem, e estão por aí para nos ajudar.

Deus fala para nós através deles.

Precisamos estar atentos a eles...

Essa é a primeira mensagem que queria passar.

A segunda, é que as vezes somos limitados pela vida, nos acostumamos e aceitamos essa limitação.

Embora tenha algumas pessoas, que reclamem dessas limitações, mas assim mesmo vive com elas.

Por algum motivo, tive que passar por isso e passei.

E enquanto aceitei a situação, nada aconteceu, ou melhor, até piorou.

Mas a partir do momento, que eu decidi que merecia e queria mais, e comecei a procurar pelo mais, as coisas fluíram, até que eu conseguisse o que queria.

Deus me mostrou o caminho e eu segui.

E sai vitoriosa.

Aprendi então, que não precisamos aceitas as limitações da vida.

E partir do momento que eu decidi superá-las, as coisas aconteceram.

Deus nos dá limitações?

Às vezes dá.

Mas ele também nos dá a opção de não aceitá-las e a força para lutar para superá-las.

O poder da escolha, é nosso.

E cabe a nós enxergarmos as opções existentes.

Deus está do nosso lado e nos apoiará sempre, como um pai apóia seu filho, no conformismo ou na necessidade de mudança.

Tudo depende de nós.









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